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18 Fevereiro 2008
Lamarca e Zequinha – A ditadura no sertão
Posted by Sandra under Personagens Históricos | Tags: história, lamarca |
Carlos Lamarca nasceu no Rio de Janeiro em 27 de Outubro de 1937. Em 1954, aos 17 anos, é admitido na Escola Preparatória de Cadetes, em Porto Alegre. Em 1959, casa-se às escondidas com Maria Pavan, que estava grávida. Em 5 de Maio de 1960 nasce César Lamarca, 2 anos depois, a segunda filha, Cláudia. Teria seguido a carreira militar, como tantos colegas seus o fizeram, não fosse o fato de ele não aceitar a maneira como os militares usavam o exército para reprimir o povo, quando este gritava por seus direitos. Após alguns atos de insubordinação “leve”, ele radicalizou e em 24/01/1969 fugiu do quartel de Quitaúna levando numa kombi, 63 fuzís FAL, 3 metralhadoras e munição. Este fato marcou seu rompimento com o exército e sua entrada para a clandestinidade. Conheceu os principais militantes revolucionários, e leu clássicos comunistas, como Marx, Tolstoi e Trotski.
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José Campos Barreto (Zequinha) era o mais velho dos 7 filhos do casal José Araújo Barreto e Adelaide Campos Barreto (Dona Nair), responsável pela construção da igreja do Burití Cristalino (município de Brotas). Zequinha estudou no Seminário de Garanhuns, Pernambuco, e todos os anos, no mês de dezembro, vinha visitar a família. Numa dessas visitas (1963) não voltou mais para o seminário: ficou um ano trabalhando na roça e depois foi para São Paulo.
Em 1965 serviu o exército, no Quartel de Quitaúna. Fez amizade com vários líderes operários, participou de greves e manifestações. Numa greve, dia 17 de julho de 1968, com as tropas da Polícia Militar ameaçando invadir a Cobrasma (empresa onde Zequinha trabalhava), ele correu ao depósito de gasolina e ameaçou explodir a fábrica. Na confusão, muitos operários e grevistas conseguiram fugir. Zequinha ficou preso 98 dias.
Foi solto, e retornou ao Buriti levando os jornais. Olderico fica sabendo do acontecido, viajam os dois para São Paulo, onde Zequinha milita na VPR (Vanguarda Popular Revolucionária). Daí mudam para Salvador, onde Olderico trabalha como motorista, e retornam ao Buriti. Com a morte de Dona Nair, eles se separam, indo Olderico para São Paulo e Zequinha para o Rio, onde milita na VAR- Palmares (dissidência da VPR). Decide mudar do Rio para Salvador e convence Olderico a acompanhá-lo. Lá aproxima-se do MR-8.
Com o endurecimento da repressão era necessário a transferência e deslocamento de alguns “quadros” para um local mais seguro. Como Zequinha já era de confiança dentro do MR-8, sugeriu-se a transferência de Lamarca do Rio para o sertão, o Buriti Cristalino era o local perfeito.
29 de junho de 1971 - Lamarca chega ao Buriti, juntamente com Santa Bárbara (um militante de Feira de Santana). Ficou escondido lá por dois meses, até que em 26 de agosto os militares da repressão, chefiados pelo então major Nilton Cerqueira e auxiliados pelas autoridades de Brotas, invadem o Buriti promovendo o horror e a violência contra a família de Zequinha. Otoniel é morto, Santa Bárbara suicida-se, seu José é barbaramente torturado, Olderico tem o dedo estraçalhado e o rosto atigido por uma bala, enquanto Zequinha e Lamarca fogem embrenhando-se na caatinga, conseguindo despistar seus perseguidores. Os militares então, suspendem as buscas, e retornam a seus postos.
Recebendo informações de moradores das redondezas, os militares voltam a região e retomam as buscas. Os dois são descobertos em Pintada (localidade de Brotas) e assassinados pela repressão, a 17 de setembro. Seus corpos foram levados à Brotas e expostos como troféu, fato que aterrorizou a população da cidade.
Fonte:
Lamarca, o capitão da guerrilha
Global Editora
Oldack Miranda e Emiliano José
Uma resposta to “Lamarca e Zequinha – A ditadura no sertão”
1. Sandra Disse:
18 Fevereiro 2008 at 4:23 pm
O texto abaixo foi-me enviado por Oldack Miranda. É o texto do release distribuido pelos organizadores da celebração em homenagem a Lamarca e Zequinha (2001).
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VIDAS PELA VIDA!
30 ANOS DA MORTE DE LAMARCA
CELEBRAÇÃO DOS MÁRTIRES DA DIOCESE DE BARRA
“Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos que ama”.
Jesus de Nazaré, Jo. 15,13
“As pessoas e coisas têm de ser lembradas sempre: sob pena de MAIS um pouco de morte”.
João Guimarães Rosa, ‘A Caça à Lua’
Ave, Palavra!
“Nossas mortes não são nossas. São de vocês. Elas terão o sentido que vocês lhes derem”.
Bárbara Souneborn, no filme ‘Lamentamos Informar’
Neste ano de 2001 se completam 30 anos da morte de Carlos Lamarca. Corria o mês de setembro de 1971 quando o Capitão Lamarca tombou morto pelas tropas policiais. O país estava dominado por uma sangrenta ditadura militar, que prendia, seqüestrava, torturava e matava seus opositores. Com o golpe militar de 1964, o Presidente João Goulart foi deposto. A partir de então, organizações como sindicatos, partidos políticos e entidades estudantis foram fechados e jogados na clandestinidade. Parlamentares foram cassados e expulsos do país, bem como professores, religiosos, lideranças populares, cientistas e artistas. Qualquer manifestação era duramente reprimida e se fecharam todos os canais de diálogo.
Nesse contexto, muitos brasileiros e brasileiras comprometidos com a construção de um país justo e democrático, optaram pelo enfrentamento armado aos militares - mesmo que isso custasse a sua própria vida. O Capitão Carlos Lamarca, militar exemplar que se aliou aos grupos clandestinos que combatiam a ditadura, é um desses grandes heróis nacionais que a historiografia oficial ainda não reconhece. Mas, tão importantes quanto Lamarca, temos muitos outros lutadores e lutadoras que derramaram seu sangue para que hoje pudéssemos ter um mínimo de democracia no Brasil. Que foram assassinados na área da Diocese de Barra temos Zequinha e Otoniel Barreto, Luiz Antônio Santa Bárbara, Manoel Dias e o Jota.
“A causa é que faz o mártir”, escreveu Santo Agostinho. Sem dúvida alguma quem foi morto defendendo a causa da justiça, da democracia e da reforma agrária é um MÁRTIR. Mesmo que sua militância não seja dentro de uma igreja ou religião. Queremos celebrar a vida e a morte de nossos mártires, como um reconhecimento de seu exemplo e como compromisso com a causa pela qual derramaram o seu sangue.
Para isso, a Diocese de Barra está promovendo a celebração e o seminário “Vidas pela VIDA!”. A celebração ecumênica acontecerá na comunidade de Pintada (município de Ipupiara), local onde ocorreu o assassinato de Lamarca e Zequinha. Reunirá paróquias, movimentos sociais, entidades populares, lideranças políticas e religiosas, familiares e testemunhas dos nossos mártires. O Seminário acontecerá em Brotas de Macaúbas, no auditório da CASEF (Cooperativa Agromineral Sem Fronteiras) e contará com a participação de João Pedro Stédile (MST – Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) e de César Benjamin (companheiro de militância de Lamarca e hoje um dos coordenadores da Consulta Popular). Na ocasião também será feito o relançamento do livro “Lamarca, Capitão da Guerrilha” de Emiliano José e Oldack Miranda.
PROGRAMAÇÃO
Dia 29/09 (sábado)
09:00 - Celebração ecumênica em Pintadas
15:00 - Palestra e debate no auditório da CASEF em Brotas
João Pedro Stédile (MST) e César Benjamin (Consulta Popular)
Re-lançamento do livro “Lamarca, Capitão da Guerrilha”
Oldack Miranda e Emiliano José
Dia 30/09 (domingo)
07:00 - Ida até a comunidade de Buriti Cristalino
HISTÓRIAS DE VIDA
LAMARCA
Carlos Lamarca - 27/10/1937 - 17/09/1971
“Ousar lutar, ousar vencer.”
Carlos Lamarca nasceu no Rio de Janeiro, o terceiro dos seis filhos de uma família modesta. Desde a infância demonstrou espírito de liderança, persistência e gosto pelos estudos. Aos 17 anos ingressou na carreira militar, obtendo a patente de Capitão em 1967.
Foi oficial exemplar, tendo servido à ONU (Organização das Nações Unidas) no Oriente Médio durante a ocupação do Canal de Suez. Nesse período interessava-se cada vez mais pela ação política, como forma de acabar com a fome e construir uma sociedade justa e igualitária. Casou aos 23 anos com Maria Pavan e teve dois filhos, César e Cláudia.
“Eu vim servir ao Exército pensando que o Exército estava servindo ao povo, mas quando o povo grita por seus direitos é reprimido.” Esse foi o desabafo de Lamarca a sua esposa em 1966, dois anos depois do golpe militar que mergulhou o Brasil numa ditadura assassina.
Em 1969, Lamarca abandona o Exército e se junta aos grupos que lutavam contra a ditadura militar e pela implantação de um regime político socialista no Brasil. Em 1971 vai para o sertão da Bahia, no município de Brotas de Macaúbas, para lá preparar uma base para a luta na zona rural.
No mesmo ano um dos companheiros de Lamarca é preso em Salvador e é torturado até informar o seu paradeiro. Uma grande ação militar é montada e, depois de 20 dias espalhando terror e ameaças na região, a repressão militar encontra Lamarca e Zequinha. Os dois são executados próximo da comunidade de Pintada, município de Ipupiara, enquanto descansam na sombra de uma baraúna. Após uma jornada a pé de quase 300 km, os dois se encontravam absolutamente exaustos e desnutridos. Lamarca tinha 34 anos quando foi morto.
ZEQUINHA
José Campos Barreto - 17/09/1971
“Abaixo a ditadura!”
Zequinha nasceu no povoado de Buriti Cristalino, município de Brotas de Macaúbas, filho de José Barreto e Adelaide Campos Barreto. O mais velho de sete irmãos de uma família simples e muito religiosa, Zequinha segue ainda menino para estudar no Seminário de Garanhuns, em Pernambuco. Depois de quatro anos de Seminário, retornou para o Buriti Cristalino onde trabalhou na roça e foi animador da comunidade. Em 1964 segue para São Paulo, serve ao Exército, participa de entidades estudantis e do sindicato dos metalúrgicos, tomando a frente de manifestações e paralisações. Já tendo uma firme consciência política, Zequinha passa a militar nas organizações clandestinas de combate à ditadura militar.
Retorna a São Paulo com o irmão Olderico, de onde seguem depois para Salvador. Zequinha ainda mora um tempo no Rio de Janeiro e depois retorna com Olderico para a Bahia, já com a intenção de fortalecer um foco de luta guerrilheira no sertão. Em 1971, já no Buriti Cristalino, recebem Luiz Antônio Santa Bárbara e o Capitão Carlos Lamarca.
“Abaixo a ditadura!” Segundo relatório do Exército, estas foram as últimas palavras de Zequinha, quando foi baleado junto com Lamarca, em setembro de 1971.
OTONIEL
Otoniel Campos Barreto - 28/08/1971
Otoniel, irmão de Zequinha, foi executado quando já estava sob a guarda dos agents policiais no sangrento assalto ao Buriti Cristalino. Otoniel, sob o impacto dos gritos do pai de 65 anos que estava sendo torturado, alcança uma arma e tenta empreender uma desesperada fuga. Foi alvejado e tombou morto.
SANTA BÁRBARA
Luiz Antônio Santa Bárbara - 28/08/1971
Luiz Antônio nasceu em uma família pobre, filho de Deraldino Santa Bárbara e de Maria Ferreira Santa Bárbara. Foi presidente do Grêmio Estudantil do Colégio Municipal de Feira de Santana e já possuía certa consciência política mesmo antes do golpe militar de 1964. Chegou a ser preso durante a repressão provocada pelo AI-5 (Ato Institucional n° 5). Foi morar no Buriti Cristalino em 1971. Lá, foi hóspede da família Barreto, trabalhou na roça e também como professor, alfabetizando de crianças a velhos. Santa Bárbara era um bom jogador de futebol e, junto com os irmãos Barreto, fazia também um trabalho de formação política com a população local . Organizaram uma peça teatral sobre a cobrança de impostos e debatiam temas como a propriedade da terra , a fome e a migração para São Paulo. Santa Bárbara morreu no Buriti Cristalino, na mesma ocasião que Otoniel. Há duas versões sobre a morte de Santa Bárbara: uma de que morreu durante tiroteio e outra de suicídio. O laudo necroscópico revela que ele foi assassinado e não cometeu suicídio. Santa Bárbara tinha 24 anos quando tombou morto pela repressão.
MANOEL DIAS
Manoel Dias de Santana - 08/09/1982
“Onde nós derrama o suor, nós derrama o sangue!”
Manoel Dias, lavrador honrado e reconhecido como homem de muita fé e sabedoria. Junto com mais 19 lavradores, Manoel tomou posse de 5.000 hectares de terras devolutas para plantarem e sustentarem suas famílias. Isso foi no ano de 1965 na localidade de Boa Vista do Procópio, município de Barra. Ali viveram tranquilamente durante onze anos, tentando inclusive encaminhar a regularização da posse da terra. A partir de 1976, essas famílias pacatas e trabalhadoras começaram a ser molestadas pelo grileiro Leão Diniz de Souza Leão Neto, que se dizia proprietário das terras apresentando documentos fraudados. Nessa época, o já idoso Manoel Dias liderou a organização e a resistência dos posseiros. Mesmo com denúncias e pedidos de providência feitos na época pela Diocese de Barra e pela CPT (Comissão Pastoral da Terra), as autoridades não agiram contra as ameaças do grileiro. No dia 8 de setembro de 1982, o grileiro acompanhado de 30 pistoleiros e com 2 tratores, tomou de assalto Boa Vista do Procópio. “Eles derrubaram as casas, quebraram as roças e soltaram e mataram as criações. Deixou todo mundo desabrigado. Não satisfeito com isso, ele partiu em frente até matar o velho meu pai”. Essas são palavras de Osvaldo, filho de Manoel Dias. Um pai de família morto e três outros feridos, crianças, mulheres e velhos desabrigados. Foi esse o resultado da ação do grileiro que, com arrogância, já propagava sua impunidade, afirmando ter muito dinheiro e influência. Manoel Dias tinha 77 anos quando foi assassinado pela ganância do latifúndio.
JOTA
Josael de Lima - 21/05/1986
Josael, mais conhecido pelo apelido de Jota, nasceu na cidade de Tapiramutá no dia 16/03/1936. Casou-se com Josefa Elze de Jesus. Filho de família humilde, Jota foi funcionário dos correios até sua aposentadoria. Trabalhou também na FUNDIFRAN (Fundação para o Desenvolvimento Integrado do Vale do São Francisco) e no apoio aos sindicatos de trabalhadores rurais, colônias de pescadores e associações, sempre na defesa dos trabalhadores e da reforma agrária. Junto à Diocese de Barra, Jota esteve à frente de vários trabalhos: dos encontros de casais até a CPT (Comissão Pastoral da Terra). Na posse de D. Itamar Vian como bispo diocesano, Jota foi o orador representante dos leigos da Diocese. Jota foi lutador incansável pelos direitos dos mais fracos e pela democracia. Foi um dos fundadores do Movimento Democrático Brasileiro na cidade de Barra no período da ditadura militar. Em 1982 foi candidato a prefeito da cidade. Quando foi assassinado, Jota assessorava uma equipe do INCRA no levantamento de áreas em conflito de terra e organizava manifestações pela reforma agrária. Foi morto com um tiro no peito quando voltava do trabalho, a mando dos grileiros Leão Diniz de Souza Leão Neto e Antônio Henrique de Souza Moreira. “Espero que a morte de meu marido não fique no esquecimento. Ele foi um homem que lutou pela reforma agrária e por isso foi morto. Por essa razão estou aqui para denunciar o descaso das autoridades policiais”. Essas foram as palavras de D. Josefa Elzi ao Jornal A Tarde, 4 anos depois do assassinato de seu marido. Jota tinha 50 anos quando foi morto e deixou seis filhos e dois netos.
quinta-feira, 7 de maio de 2009
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